A caricatura neoliberal e globalizante de Bolsonaro

Publicado por 19 de junho de 2018 às 08:43

Sucesso entre jovens homens brancos endinheirados e escolarizados do Centro-Sul, o perfil médio do brasileiro hoje disposto a votar nele para presidente, Jair Bolsonaro era só mais um deputado até 1999.

Aí começou o segundo governo FHC e ele perdeu a estribeira na Band. Defendeu fuzilar o presidente que “atende o FMI para poder honrar compromissos junto à agiotagem internacional”, o tucano responsável por uma “dívida impagável”, merecedora de “moratória urgentemente”.

A repentina notoriedade logo o levaria ao SBT, e a uma nova explosão: “Barbaridade é privatizar, por exemplo, a Vale do Rio Doce como ele (FHC) fez, é privatizar as telecomunicações, é entregar nossas reservas petrolíferas para o capital externo”.

Aquele quarentão raivoso ficaria espantado se descobrisse o que se tornou aos 63 anos. Certamente, proporia paredão para si próprio. Quem sabe um haraquiri, o ritual suicida dos guerreiros japoneses.

Na ambição de chegar ao poder na hoje imprevisível eleição, o ex-capitão do Exército entrou numa disputa com o PSDB de FHC sobre quem é mais neoliberal e antinacionalista, quem é mais amigo do “mercado” e de Tio Sam. Promete privatizações por atacado, fechar outras tantas estatais, bate continência para a bandeira dos Estados Unidos, jura que vai “respeitar contratos”, forma cifrada de dizer que não fará auditoria da dívida nem reestatizará empresas.

Conversão sincera aos dogmas do Consenso de Washington, aqueles que passam vergonha na Argentina por esses dias? Ou tentativa de iludir o establishment econômico e político brasileiro para ser aceito?

Certo é que no “mercado” há uma fatia razoável disposta a abraçar Bolsonaro, pois contra postulantes do campo progressista vale tudo. Algo como uns 40% dos investidores, nas contas de um analista do setor que passa dias e noites a examinar o cenário eleitoral. Um drama para Geraldo Alckmin, o presidenciável do PSDB, partido queridinho do establishment desde o governo FHC.

O ex-governador paulista não avança nas pesquisas, e a principal razão é Bolsonaro rivalizar com ele no eleitorado conservador. Desde abril, o deputado oscila de 15% a 20%, enquanto Alckmin patina por volta dos 5%. O presidenciável reacionário não perde do tucano nem em São Paulo, estado que Alckmin governava até outro dia. No máximo, empata.

Na terça-feira 5, foi divulgado um manifesto em Brasília, por articulação de FHC e do secretário-geral do PSDB, o deputado mineiro Marcus Pestana, a pregar a união eleitoral de partidos governistas. O documento e os discursos achincalham os “radicalismos” do campo progressista e de Bolsonaro, mas o verdadeiro alvo era o extremista do PSL.

Um aceno à união de Henrique Meirelles, do MDB, Rodrigo Maia, do DEM, Álvaro Dias, do Podemos, e por aí vai. A aflição na turma do impeachment é tanta que, para FHC, vale até embarcar em Marina Silva, da Rede, pré-candidata que não orbita no governismo.

Um dia depois do esvaziado lançamento do manifesto, outra ação destinada a injetar ânimo na pré-campanha de Alckmin. Por iniciativa de Pestana, houve uma sessão de autógrafos do livro O Voto do Brasileiro, de Alberto Carlos Almeida. A obra reúne uma série de dados sobre as últimas três eleições presidenciais no Brasil e de alguns outros países, e conclui que existe um certo padrão eleitoral regional.

No caso do Brasil, esse padrão seria determinado pelo tema econômico e pode ser visto assim: o Nordeste é “cidadela” do PT, e São Paulo, do PSDB. Daí que, para Almeida, a tendência é 2018 repetir a polarização entre petistas e tucanos. O próprio cientista político admite, porém, que há algo “um pouco fora do scritp” em 2018. “Bolsonaro impede” que a cidadela tucana deságue votos até aqui no PSDB.

bolso_eua-1024x585.jpg

Um abaixo-assinado realizado à sombra da George Washington University define Bolsonaro como extremista de direita, racista, sexista e homofóbico

A caricatura neoliberal e globalizante do ex-capitão contribui para a hesitação na “cidadela” tucana. São Paulo é reduto do “mercado” no Brasil. Em novembro passado, em entrevista à Band, Bolsonaro saiu-se com essa: “Tem estatal que não tem de ser privatizada, tem de ser extinta. Outras estatais têm de ser privatizadas, sim”. E ressalvou: “As estratégicas, você tem de ver o modelo. Você não pode entregar para o capital que pagar mais”. Nestes casos, como, por exemplo, a Eletrobras, o governo deveria ter poder de veto nas decisões da ex-estatal.

O economista que Bolsonaro aponta como seu “ministro da Fazenda” caso seja eleito é defensor de “privatizar tudo”. Inclusive a joia da coroa, aquela cuja quebra do monopólio e abertura do capital detonaram a fúria bolsonarista contra FHC no passado. “Por que não pode vender os Correios? Por que não pode vender a Petrobras?”, disse o neoliberal Paulo Guedes, em fevereiro, à Folha.

E Bolsonaro? “A Petrobras eu posso considerar a privatização, mas seria uma das últimas empresas, e olhando para qual capital seria transferida”, afirmou em outubro, em Nova York, à agência Bloomberg, uma espécie de circuito interno de notícias da banca global.

Os planos tucano-alckmistas são praticamente iguais. Na quarta-feira 6, o presidenciável do PSDB comentou em Brasília: “Pretendo privatizar o máximo que puder”, exceto Banco do Brasil e prospecção de petróleo. Ou seja, para Alckmin, a Petrobras deve furar poço e só, nada de refinar e distribuir combustíveis. Era a visão do tucano Pedro Parente, o patrono da greve caminhoneira recém- -demitido.

O principal assessor econômico da pré-campanha de Alckmin, Persio Arida, colaborador do Plano Real e do governo FHC, discorda de ressalvas, igual Guedes. “Não existe nada que seja estratégico no Brasil.” Deve ser por falta de coisas “estratégicas” no País que o leilão de campos do pré-sal na quinta-feira 7 tenha tido participação recorde de petroleiras estrangeiras.

A declaração de Arida foi dada em uma entrevista do tipo “tiroteiro” contra o bolsonarismo. Em 30 de maio, ele foi em São Paulo à agência de notícias Infomoney, outro porta-voz do “mercado”, para rebater o que tinha sido dito ali uma semana antes por Guedes. Para este, “Alckmin é irrelevante”, “um bom homem num Titanic chamado establishment, que perdeu a decência e está com um problema sério”. Mais: Guedes tascava que o tucano estará fora do segundo turno, daí o PSDB terá o dilema de apoiar Bolsonaro ou alguém da centro-esquerda.

Arida estava particularmente irritado com a colaboração de Guedes na difusão, pelo bolsonarismo, de que o PSDB seria um partido social-democrata igual ao PT. “Você acha que Arminio Fraga (outro colaborador de Alckmin) não é liberal? (…) Que eu não sou liberal? Aliás, eu sou liberal por inteiro, não sou liberal pela metade, porque sou liberal na economia e nos costumes.”

 

 

Fonte:Carta Capital

Fonte:

Tags:  
Link de Acesso a Matería
A caricatura neoliberal e globalizante de Bolsonaro – O Itaqui Notícias A caricatura neoliberal e globalizante de Bolsonaro | O Itaqui Notícias