Croácia simplifica o futebol e chega à final da Copa da Rússia

Publicado por 12 de julho de 2018 às 10:04

Croácia manda ao mundo uma mensagem que o futebol precisava ouvir há muito tempo. Está na final da Copa da Rússia sem anti-jogo, sem jogadores celebridades, gladiadores, sem abdicar de seu estilo e, porque não, fiel aos dias de hoje onde se cobra sangue e suor. É a primeira vez que os croatas chegam à decisão do Mundial na sua história. Vão medir forças com a França, domingo, no mesmo Luzhniki onde calaram a multidão inglesa ao vencer a Inglaterra por 2 a 1, com direito a gol decisivo de Mandzukic no segundo tempo da prorrogação nesta quarta-feira.

Em minoria no estádio, a torcida croata celebrou a classificação até o apagar dos refletores, diante de um momento único do futebol de seu país. Cantaram como nunca contemplando a festa de seus jogadores ali de pertinho. Ambiente bem diferente do que enfrentaram quase o tempo todo quando a maioria inglesa fez diferença.

Aliás, os ingleses começaram o jogo acesos, embalados na atmosfera efervescente de sua torcida. Pulsaram no ritmo dos “Three Lions, Football’s Coming Home”, música criada na Eurocopa de 1996 sediada pela Inglaterra –uma celebração da volta ao futebol ao país depois de 30 anos da conquista da Copa do Mundo de 1966 na própria Inglaterra.

Em maior número disparado no Luzhniki, os ingleses botaram fogo no estádio. Croatas optaram por dizer “Obrigado, Rússia” em uma faixa. Não mediram força com os rivais.

Pode ser coincidência, mas o aroma inglês contagiou a a seleção no campo. Com apenas três minutos, Modric, um dos astros da Croácia, se viu obrigado a fazer falta em Dele Alli, quase na meia-lua de sua grande área. Trippier bateu à perfeição contando com a demora do goleiro Subasic ir para a bola: Inglaterra 1 a 0, aos 4 minutos. E sobe o som de “Three Lions” no Luzhniki.

Gol sofrido tão cedo transformou a seleção croata em um poço de nervos. A bola parecia de fogo, queimando nos pés de jogadores importantes.

A vantagem, evidente, levou os ingleses a habitar ainda mais seu campo de defesa e a esticar bolas para a correria de Sterling e Lingard, em cima de Lovre e Vida. Um Deus nos acuda.

O jogo ficou assim: Croácia voltando à respiração normal com troca de passes e enchendo a área inimiga de cruzamentos – no chão, à meia altura e no alto – e a Inglaterra com ligação direta em busca de seus velozes atacantes, segura de si e controladora da partida. Não era, digamos, um confronto de alto nível em se tratando de uma semifinal de Copa do Mundo.

Havia ainda alguns aspectos a ressaltar. Harry Kane, artilheiro do Mundial até aqui com seis gols, pouco pegava na bola. Modric e Rakitic, os mais astutos do outro lado, não clareavam as ideais de sua turma. E, por fim, a algazarra e cantoria infinita dos ingleses – sem trégua.

Cabe ainda um parêntese. Vida, zagueiro croata, era alvo de vaias ensurdecedoras a todo momento que tocava na bola. Um manifesto dos russos contra Vida por ter declarado apoio à Ucrânia no conflito contra a Rússia. Um pouco de política e futebol na Copa na reta final do evento.

Não foi um primeiro tempo de arrepiar. Poucas situações de gol. Cruzamentos sem ponto final da Croácia e fidelidade canina dos ingleses a sustentar o esquema de jogo muito mais voltado a se defender a atacar.

O segundo tempo começa sob o tom dos croatas, obrigados a correr atrás pelo menos do empate. A estrutura era a mesma. Abrir o jogo pelos lados e cruzar entre os beques ingleses para Mandzukic se virar. Até chegar ao ponto ideal de mandar os torpedos na área, a bola era trabalhada por Modric, Rakitic e Perisic. E, detalhe importante, empurrados pela torcida quadriculada em branco e vermelho que resolveu acordar na disputa de vibração com os ingleses.

Vida, um dos símbolos da Croácia, celebra vaga à final da Copa da Rússia – foto: AFP

Acomodada, Inglaterra não diminuiu os espaços de Modric e Rakitic e não deu atenção a Perisic, sempre se infiltrando da ponta-esquerda na função de centroavante. Essa desatenção custou caro. Depois de dezenas de cruzamentos à meia altura sem aproveitamento, lateral Vrsaljko enfim encontrou Perisic entrando nas costas de Walker. Ele desviou com um golpe de pé e empatou 1 a 1, aos 21.

Gol trouxe pânico a quem era dono da situação e calou alguns decibéis da frenética torcida inglesa.

Perisic ainda carimbou o pé direito da trave de Pickford. Defesa inglesa passou a bater cabeça e a bola não chegava a Kane e a seus parceiros. Gareth Southgate trocou Sterling por Rashford, mais velocidade e dribles. Time estava atrofiado. Lingard e Dele Alli, encarregados de mover a engrenagem, sumiram diante da boa marcação do inimigo. Rashford pouco fez, apesar a força de vontade.

Sem força física, extenuada por duas prorrogações consecutivas – nas oitavas e quartas contra Rússia –, a Croácia queimou o que restava de gás no botijão. Inglaterra ainda buscou afobada o gol de misericórdia. Nada feito. A decisão de quem enfrentaria a França na final seria no tempo suplementar de 30 minutos ou nos pênaltis.

De acordo com a nova regra, um time tem direito a mais uma substituição na prorrogação mesmo se tiver queimado as três nos 90 minutos ou nenhuma. Portanto a Croácia, que não havia mudado nenhuma peça no tempo normal, poderia trocar quatro jogadores e a Inglaterra mais três, por ter substituído Sterling por Rashford.

Southgate trocou o lateral-esquerdo Ashley Young por Danny Rose, de mais intimidade com o ataque, e o volante Henderson por Dier, da mesma posição – aí era questão de fôlego.

Ziako Dalic também fez suas trocas. A mais profunda foi a saída de Rebic para entrada de Kramaric para ter dois atacantes na área inglesa.

O jogo não era mais de estratégias. Quem tinha mais perna a obedecer a cabeça levaria vantagem. Vrsaljko salvou os croatas tirando a bola na linha depois de cabeçada de Stones. Do outro lado, Pickford dividiu com Manzdzukic, evitando segundo gol claro.

No conjunto da obra, a Croácia estava mais lúcida, confiante e querendo fazer história de verdade.

Restavam 15 minutos de esperança e orgulho dos dois lados. O Luzhinik virou um imenso templo de orações e cânticos de pouco mais de 78 mil torcedores.

Começa segundo tempo da prorrogação e a Croácia finca a espada. Perisic ganha de cabeça um rebote da zaga, Mandzukic entra sorrateiro nas costas de Stones e golpeia Pickford; 2 a 1. Há um estrondo de vozes croatas e um silêncio sepulcral inglês.

Instantes finais latejantes. Desesperada, a Inglaterra lança bolas na área inimiga. Em vão. Nada iria remover a história dos croatas. Eles estavam dispostos a escrever seus nomes em Moscou. Usaram um pingo de inteligência e resistência até o apito final. E receberam a benção da classificação à final da Copa da Rússia. Seja qual for o resultado da decisão contra a França, já estão imortalizados na Croácia. Croatas simplificaram o futebol. Resta a coroação.

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