Ciro e Lula: não há anjos na política, só seres humanos

Publicado por 3 de agosto de 2018 às 10:29

Ciro Gomes ataca a venda do patrimônio nacional pelo governo de Michel Temer. Lula também. O pedetista revolta-se com uma reforma trabalhista sem pactuação. O petista, idem. Ambos querem mudanças tributárias capazes de aumentar a contribuição dos mais ricos sem reforçar a carga líquida de impostos. Apesar de algumas diferenças na forma de atingir esses objetivos, há grande sintonia sobre o que é necessário ser feito no País.

Se não fossem as ideias, poderia se imaginar que hoje são apenas adversários políticos. De um lado, o explícito esforço de Lula e de seu partido para isolar seu ex-ministro na disputa. De outro, os protestos de Ciro contra a “valsa à beira do abismo” ensaiada pelo ex-presidente ao insistir na candidatura, fora as acusações de intervenção direta do petista para frustrar suas negociações com o “centrão” e o PSB.

Na quarta-feira 1º, Ciro teve a oportunidade de rebater, em entrevista à Globo News, o acordo costurado entre o PT e o pessebistas no mesmo dia em que ele foi anunciado. Como articulador político, Ciro colocou Lula ao lado Temer e Geraldo Alckmin, do PSDB, como um trio que trabalha para isolá-lo. Se considerou “um cabra marcado para morrer”. Acusou o ex-presidente de “operar” com Valdemar da Costa Neto, do PR, para impedir o “centrão” de a

Sem alianças, Ciro terá 29 segundos de tempo de televisão por bloco e muita dificuldade para desenvolver sua campanha pelo Norte e Nordeste, onde a Executiva Nacional do PT prometeu apoiar 4 candidatos do PSB a governos estaduais. Entre eles, o atual governador Paulo Câmara, de Pernambuco, para desgosto da pré-candidata petista Marília Arraes, que promete insistir na candidatura própria.

Em troca, o PT deve ter o apoio dos pessebistas na Bahia e no Piauí, onde os governadores Rui Costa e Wellington Dias tentam a reeleição, e possivelmente outros estados. Como não é uma aliança, os petistas não absorvem o tempo de televisão do PSB, de 47 segundos para a campanha presidencial. Mas impedem Ciro de se aproveitar da vantagem.

Em uma arena como a Globo News, braço jornalístico de um grupo de comunicação combatido diariamente por Lula e PT, Ciro não abriu mão de valorizar o legado do ex-presidente. Não cedeu em seu projeto desenvolvimentista e comprometido com a soberania nacional ao falar a uma bancada crítica a estas propostas. Ao comentar o Lula candidato ou articulador político, Ciro atacou. Mas como ex-presidente, elogiou mais que bateu.

Em uma entrevista recente à TV Difusora, no Maranhão, Ciro considerou-se o único capaz de dar continuidade ao projeto político do ex-presidente. Após a divulgação do acordo entre PT e PSB, aumentou o tom das críticas à decisões de Lula no governo, mas não fez pouco caso dos avanços. Resumiu a análise a uma pergunta: “Lula é um anjo ou um ser humano?”

“Se Lula não for um anjo, como certos petistas acreditam, ele é um ser humano”, responde Ciro. “Eu fui ministro dele. Eu sei que, por exemplo, com Lula o salário mínimo subiu de 76 dólares de poder de compra, para 320 dólares. O crédito subiu de 17% para 55% do PIB. A rede de proteção social espantou a fome do lar de muitas famílias brasileiras. Isto aqui é um grande homem e fez muita coisa pelo País”, afirmou aos jornalistas da Globo News.

Por outro lado, o mesmo homem, diz Ciro, “loteou a Petrobras, entregou a economia para o conservadorismo e nomeou o (Henrique) Meirelles para o Banco Central”. “Ou eu sou petista que acha o Lula um anjo impecável, ou um coxinha que acha o Lula um satanás. Ele não é nenhuma coisa nem outra.”

Ciro tem razão neste ponto. A política é coisa de seres humanos, sempre capazes de disputas por poder e exercícios infindáveis de vaidade. Não há anjos ou salvadores da pátria, embora certo candidato, bem posicionado nas pesquisas, se venda como panaceia autoritária. A disputa pelo poder deixa aliados pelo caminho, e força divisões aparentemente desnecessárias.

Como entender que Ciro e Lula não estejam juntos, mesmo compartilhando uma visão parecida para o País, se não pelo fato de serem “animais políticos”? O pedetista preferiu se distanciar de Lula no momento de sua prisão e, além de um pedido formal à Justiça para visitá-lo, não tratou um encontro com o petista como prioridade. Por outro lado, o PT ou Lula não fizeram um gesto claro de aproximação, salvo raras exceções, como a de Jaques Wagner, entusiasta de uma aproximação com Ciro.

De um lado, temos um candidato que apoia o legado de Lula, mas não concorda com a manutenção de sua candidatura, questão de honra para os petistas. De outro, um ex-presidente preso que considera, assim como seu partido, fundamental manter-se na disputa, mas que prefere um nome caseiro para substitui-lo caso seja necessário. Talvez na ilha de Utopia, imaginada por Thomas More, estariam juntos em nome de um projeto comum. Mas Ciro já nos forneceu a explicação: não há anjos na política, apenas seres humanos.

Carta Capital

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