Oriente Médio corre risco de viver nova guerra

Publicado por 11 de maio de 2018 às 10:20

A máxima de que “a toda ação corresponde uma reação oposta de igual intensidade” pode ser letal quando colocada em prática no Oriente Médio. Ante o temor de uma guerra entre Irã e Israel, a comunidade internacional clamou por prudência e exigiu a desescalada de tensões. Horas depois de tropas iranianas dispararem 20 foguetes contra posições israelenses nas Colinas do Golã, as Forças de Defesa de Israel (IDF, em inglês) realizaram o maior bombardeio, em décadas, na  Síria.

Os  alvos foram infraestruturas supostamente mantidas por Teerã no território sírio: locais de inteligência associados ao Irã e a aliados, quartéis de logística pertencentes à Força Quds — unidade especial da Guarda Revolucionária Islâmica —, complexos militares iranianos ao norte de Damasco e na cidade de Kiswah, depósitos de munição no Aeroporto Internacional de Damasco, e  postos de observação no Golã.

De acordo com o jornal Haaretz, 28 caças F-15 e F-16 lançaram 70 mísseis contra o território sírio, na madrugada de ontem (noite de quarta-feira, em Brasília). “Os iranianos precisam entender que, se sobre nós tentarem derramar um pouco de chuva, nós daremos a eles uma enchente”, declarou o ministro da Defesa israelense, Avigdor Lieberman, ao assegurar que “quase toda a infraestrutura iraniana na Síria foi destruída”. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos anunciou que 23 pessoas morreram na retaliação.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu um “cessar  imediato dos atos hostis de provocação” e exortou o Conselho de Segurança a seguir ativamente o caso. Por meio de comunicado, a Casa Branca afirmou que “condena os ataques provocativos do regime iraniano a partir da Síria contra cidadãos israelenses” e “apoia fortemente o direito de autodefesa de Israel”.

Os Estados Unidos consideram “inaceitável e altamente perigoso para todo o Oriente Médio” o envio de foguetes e sistemas de mísseis iranianos à Síria. “A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã carrega total responsabilidade pelas consequências de suas ações  imprudentes”, alertou. Aliada do presidente sírio, Bashar al-Assad, a Rússia manifestou, por meio do vice-chanceler Mikhail Bogdanov, “preocupação” com a situação. “Nós estabelecemos contatos com ambas as partes e pedimos moderação. (…) Temos de trabalhar para aliviar a tensão”. A chanceler alemã, Angela Merkel, advertiu que “a escalada das últimas horas nos mostra que é realmente uma questão de guerra ou paz”. França e Reino Unido também externaram incômodo.

“O Irã cruzou uma linha vermelha, e nós respondemos de modo proporcional”, avisou o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O chefe de governo ameaçou Damasco. “Ontem (quarta-feira), eu transmiti ao regime de Al-Assad uma mensagem clara: nossas ações alvejam forças iranianas na Síria. No entanto, se o Exército sírio agir contra nós, tomaremos ações contra isso.”

Fracasso

Segundo Netanyahu, as  IDF fizeram ataques “muito extensos” contra alvos iranianos na Síria. “Graças à prontidão defensiva e ofensiva de nossas tropas, a ação iraniana fracassou.” O presidente do Irã, Hassan Rouhani, conversou com Merkel por telefone e garantiu que seu país não deseja “novas tensões”. “O Irã sempre buscou diminuir as tensões na região, tentando reforçar a segurança e a estabilidade”, disse.

Shanna Kirschner, especialista em Síria pela Allegheny College, na  Pensilvânia, lembrou ao Correio que a presença iraniana na Síria tem sido ponto de discórdia há anos, com limitados ataques transfronteiriços em várias ocasiões. “A escalada do conflito desta semana é significativamente pior, e certamente um resultado da retirada dos EUA do acordo nuclear iraniano. Teerã está preocupado sobre uma possível ação militar americana. Sob a perspectiva israelense, líderes queriam restrições maiores sobre a capacidade nuclear do Irã. Ambos os lados testam políticas e posições do outro ante a nova realidade”, disse.

“Por décadas, Israel perseguiu uma política de retaliação, com força esmagadora, quando deseja  impedir  um rival de escalar um conflito. Os ataques na Síria são consistentes com tal filosofia. Em resumo, Netanyahu assinala ao Irã que os custos da escalada contínua serão altos. Continuo a crer que ninguém quer uma guerra, mas o risco de erros acidentais ou provocações não pode ser  ignorado”, acrescentou  Kischner.

Golã, ponto de tensão

As Colinas de Golã são estratégicas para Tel Aviv e para Damasco. Com abundância em recursos hídricos, o planalto domina a região histórica da Galileia e o Lago Tiberíades, no lado controlado por Israel, e abriga estrada para Damasco, no lado sírio. Em 9 de junho de 1967, o Exército israelense conquistou o platô de onde o Exército sírio bombardeava as posições judias abaixo. As forças de Israel capturaram uma área adicional durante a guerra de 1973, mas a restituíram no ano seguinte. Cerca de 1.200km2 do planalto foram anexados por Israel em 1981, ação jamais reconhecida pela comunidade internacional.

“O Irã sempre buscou diminuir as tensões na região, tentado reforçar a segurança e a estabilidade”

Hassan Rouhani, residente do Irã

 

“O Irã cruzou uma linha vermelha, e nós respondemos de modo proporcional”

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel

 

Pontos de vista

Resposta à agressão

Por Efraim Inbar

“Os ataques foram uma resposta israelense à agressão iraniana e uma tentativa de deixar claro para Teerã que Israel não permitirá construir outro Hezbollah na Síria. Existe o risco de uma guerra, caso o Irã mantenha a escalada militar na Síria e os bombardeios a Israel. Com a ofensiva de ontem, Israel tentou ensinar aos iranianos que Teerã tem muito mais a perder se envolver-se militarmente com os israelenses. Acredito que Israel precisa melhorar sua dissuasão.”

Presidente do Instituto Jerusalém para Estudos Estratégicos (JISS)

Forças desiguais
Por Edward N. Luttwak

“Os iranianos têm sido cuidadosos em não cruzar ‘linhas vermelhas’. Os israelenses manterão os bombardeios momentaneamente e podem tentar parar, ou continuar com os ataques e perder contingente, além de equipamentos. Até o momento, o Irã tem se saído muito bem com pessoas desarmadas. Eles são incapazes de lutar contra as Forças de Defesa de Israel (IDF).”

Estrategista militar, historiador e consultor estratégico para o governo dos EUA e para aliados.

 

 

Por:Correio Braziliense

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